terça-feira, 14 de fevereiro de 2006


EU QUERO SER ANGELINA

(ou em outras palavras: quando é que as pessoas vão parar de se meter na vida da gente?)


Alguém aí me explica: quem resolveu catalogar o mundo? Rotular pessoas? Fazer um manual de vida coletivo que mora no imaginário de cada um? A gente nasce com idéias pré-concebidas e nem se dá conta que mal temos escolhas: existe mulher para casar, mulher para se divertir, mulher para se desejar e a mulher que você tem em casa. Existe a moda do dia-a-dia, underwear, sportwear, streetwear, passeio-completo, esporte-fino, a Daslu, e a lista das dez mais mal-vestidas. Existe o cara gostoso demais, o bom-partido, o bonzinho demais, o galinha demais, o mentiroso, o sogro que sua mãe pediu a Deus, seu vizinho charmoso e o cara que é o amor da sua vida. Existe o body-splash para o dia, o seu perfume favorito para a noite, o corte de cabelo da estação, as mechas avelã-caramelo-chocolate-doce-de-leite que você vai usar sem nem sentir o gosto. (Nem nenhuma emoção diferente). Existe o point do momento, a praia mais badalada, a celebridade mais comentada, o carro-do-ano, o que está in, o que está out, o que é top, o que virou lata e o eterno vai-e-volta da saia balonê que ninguém entende (nem nunca vai entender). (O luxo de hoje é o lixo da próxima estação, anote na caderneta!) Existe a tatuada-drogada, a patricinha-metida, o bad-boy, o playboy, o bombado, a divina-modelete, o intelectual, a draq-queen, o músico, o viado, a funkeira, a caminhoneira, a marombeira, o senhor dos anéis, a poeta, o bicho-grilo, o Ronaldinho Gaúcho e nossas mães (acima de todas as coisas desse mundo). Existe a gordinha, o neguinho, a branquela, a baixinha, o mala-sem alça, o malandro, a oferecida, a santinha, a maravilhosa, o pivete, a Dasluzete, a ex-mulher-do-jogador, o Brad Pitt e a Angelina Jolie (que além de linda, tatuada e engajada, tem aquela boca, gosta de sangue e facas, carrega filhos de outros continentes, tem tesão por homens casados, beija mulheres e ainda permanece Angelina Jolie). Assim: intocável em sua transgressão. Salve Angelina! Somente Angelina pode ser Angelina. Sem rótulos. Sem estereótipos. (A legenda de "atriz estranha" já saiu de cena há muito tempo). Se Angelina faz e acontece, porque nós também não podemos? Nem preciso responder. Angelina é Angelina, sinto informar. Nós, pobres mortais que não nascemos Angelina (boca, olhos e holofotes), não podemos vacilar em nossas escolhas, nem optar por nada que não seja extremamente convencional. Não troque de marido que você vira desquitada, não faça mais de uma tatuagem que você é considerada drogada, não adote um bebê do Camboja que seus parentes te deserdam, não mude sua opção sexual que você se torna promíscua, não faça pacto de sangue com facas e sangue que você vai acabar presa (e no grupo de risco). O mundo nos oferece um milhão de opções, mas você tem que achar sua categoria agora, pegar seu crachá e colar sua LOGO para uma melhor identificação quando surgir a crucial pergunta: quem é aquela pessoa ali? É a dura realidade. (Profiles em branco não serão permitidos). Se você descobriu que sua vida não se reduz a meia dúzia de palavras e que não consegue se resumir a uma ou duas categorias catalogadas no manual imaginário da Terra, um abraço... Você não serve para viver no planeta-produto. A saída é pegar sua mochilinha do shopping Oiapoque (mais original que muita gente por aí) e tirar seu time de campo. Você não tem rótulo, não tem identidade, você é um peixe-fora-dágua, benvindo! Se quiser se adaptar, esqueça sua complexidade, suas ambigüidades, pare de pensar e siga as instruções. Você não pode ser loura, cheirosa, fazer o que quiser da vida, ter um leve ar de princesa, lutar jiu-jitsu como um homem, amar maquiagem, passar no terceiro lugar no vestibular, ser tatuada e escrever poesia. Não, não pode. Categorias misturadas, ambiguidades inusitadas, carteira apreendida, por favor! Devolva os olhos azuis, o diploma e o namorado, comece a se drogar, pegue sua carterinha "trash", faça mais dez piercings, brigue na rua, só use preto e comece a viver como num clipe do Evanescence (sem a beleza misteriosa da Amy Lee, claro). Você não pode ser moreno, forte, lindo, ganhar rios de dinheiro, ser um poço de charme e ainda gostar de homens. Você é assim? Visto negado. Você vai ser obrigado a gostar de mulheres, ter mau-gosto pra se vestir, ficar mal-informado ou vai acabar com a pele opaca, a conta lisa e nenhum lugar para se divertir. Exagero meu? Um pouco. Sou intensa, exagerada, atrevida, curiosa, doce, ácida, livre, solta, tenho milhões de reticências, gosto de pessoas não-acabadas e não quero ser rotulada. Me recuso terminantemente a concordar com a existência de um mundo limitado, colocar uma LOGO na testa, parar de escrever, parar de sonhar, ter uma vida morna e parar de falar o que eu penso. E o que penso? Que podemos ser mais. Que temos pré-conceitos demais. Adoramos julgar o outro, rotular o vizinho, sem olhar para dentro de nós mesmos. Não nos sentimos capazes de sermos o que somos. De sermos tudo o que podemos (e queremos). De sentir felicidade plena todos os dias (apesar de sabermos que é difícil, mas não impossível). A sociedade corta nossas asas, nossa criatividade, nossos desejos reais e nos deixa com medo. Medo de não ser aceito. De não ser amado. De não ser compreendido. Medo de ser feliz todo dia e não saber lidar com nosso próprio poder. Medo de não ser feliz nunca e morrer aos poucos. Quer saber? A sociedade não é culpada. (Ela só possui regras e convenções). Nós somos os únicos responsáveis pelo que iremos fazer com as nossas próprias vidas. E aí? Peixes fora dágua sempre acham mares diferentes (e ás vezes turbulentos) para se viver. (E mergulhar fundo). E produtos vivem expostos em prateleiras, têm preço e não correm risco. (O prazo de validade já vem registrado). É uma escolha que depende de cada um. A minha eu já fiz.

Eu quero ser Angelina!!


(pra poder ser o que eu quiser...)



1 Fala, coração!:

 

Dia 03 de dezembro tem Gabi Mello!

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