Passe Livre

Coluna Pedro Raposo Lopes


AMANTES

Os homens casam-se por fadiga, as mulheres por curiosidade; ambos se desiludem. (Oscar Wilde, 'in' “O Retrato de Dorian Gray”)

A cena é prosaica e lindinha: dois idosos sentados à beira do canyon majestoso. Ele, mão direita posta no joelho da mulher; ela, mão esquerda a acariciar os cabelos prateados na nuca do homem. Ambos em silêncio, a contemplar a paisagem de beleza inefável. O sol a ser pôr no oeste.

Breve transcrição do pensamento dele, no essencial: “Sinto-me em paz à beira deste canyon. Se algum arrependimento há por tanta renúncia, é compensado com sobras pela segurança que sinto.

Reconheço que abri mão de um futuro incerto, abrindo mão aos frêmitos da paixão, em favor desta segurança insípida.

Sim, porque houve Erotildes, aquela morena de ancas largas que morava para os lados de Madureira, mulher que fazia os guardas virarem a cabeça com seu requebrado, banquete para quinhentos talheres! Erotildes arrastava uma baita asa para mim. Enviava bilhetes com dizeres eróticos (Erotildes, eróticos...) que me faziam ter ereções formidáveis. Naquela época, Marlene estava grávida do Armandinho. Abandoná-la neste estado para tentar a sorte da paixão seria um ato de mais alta cafajestagem.

E também (filhos já crescidos) a Dorinha. Quinze anos mais moça (embora eu ainda estivesse no viço dos meus cinquenta e poucos), estudante de letras e filosofia, cintura fina e pernas grossas, de uma brancura de raiar do dia, óculos de armação muito escura, que lhe dava ares professorais. Adorava ouvi-la falar de Foucault, Hume, Hegel e tantos outros com um entusiasmo adolescente. Com a Dorinha, sim, havia ido por uma ou duas vezes ao Cine Pathé e tomado um chope no Amarelinho. Jamais passara disso. Jamais traíra Marlene ao longo desses sessenta e quatro anos, embora tivesse a certeza do sincero amor de Dorinha, que tanto sofreu com o término daquele relacionamento que, na verdade, jamais começara.

A coisa com ela poderia ter dado certo, não fosse este meu medo paralisante de, na velhice, ser abandonado à minha própria sorte por uma mulher bem mais jovem e não ter quem, na doença, limpasse a minha bunda quando eu já não pudesse mais fazê-lo sozinho.

Trocar Marlene por Dorinha seria o mesmo que saltar neste canyon sem a segurança de um paraquedas. Seria como achar um tesouro, um baú cheio de moedas e não saber em qual país teriam validade.

Tinha e tenho muito medo disso. Imaginar Marlene limpar a bunda de outro homem enche-me de ciúme. Não ciúme próprio do amante, mas do provecto que não tem outra alternativa senão dormir cagado até que apareça uma alma gentil que lhe faça a fineza. Trocara a aventura por uma calcinha geriátrica personificada, mas dera, em troca, a fidelidade, três filhos e um certo conforto financeiro.

Então, afinal de contas, havia, sim, renunciado à felicidade em prol da fidelidade e do apoio material. Em contrapartida, sentia-se seguro. Estava quite com Marlene. Não havia débito a ser saldado.

Pensamento dela, no essencial: “Sinto-me em paz à beira deste canyon. Não tenho débito a saldar.

Armando, quando jovem, fora um rapaz que, senão bonito, possuía aquele encanto muito próprio dos homens inseguros, daqueles que necessitam de uma terceira perna que lhes dê estabilidade, embora comprometam o deambular. E (devo confessar-me, já a esta altura), tinha um futuro bem promissor no serviço público. Era da inteira confiança do chefe da repartição e a promoção a escriturário, quando noivos, era a prova cabal desse futuro profissional que o tornaria o bom provedor que sempre foi, devo reconhecer.

Uma pena que o tempo tenha adelgaçado aquele furor erótico dos primeiros anos de convivência. A ele parecia mais atraente os noticiários televisivos à cama do que a fornicação. Ou talvez o filha da puta tenha gasto toda a sua libido com a vagabunda da Erotildes, aquela mulata de Madureira que dava até para o sargento Estevão, como era de todos sabido. Ou, então, com aquela mocinha (como era mesmo o nome dela?) estudante universitária com cara de idiota que, certa feita, a procurara para conversar sobre a psiqué de Armando e uma dissertação maluca de final de curso. Psiqué é o cacete! Dissertação é uma ova! Devem ter fornicado muitas vezes num daqueles motéis baratos da Rua do Lavradio, isso sim. E ele pensa que seus delitos sensuais jamais foram descobertos...

Essas escapulidas de Armando justificam o par de chifres que carrega como signo de sua infidelidade. Sim, porque os machos sentem o cheiro de uma fêmea desamada qual o de uma cadela no cio.

Foi assim com o Aristóbulo, o endocrinologista de mãos grandes, com o Tavares, o barbeiro de pele tão macia, e com o Santos, o açougueiro de pinto pequeno mas muito eficiente. Conspurcar o leito conjugal causara-me uma excitação tanta que compensou com saldo favorável as pequenas traições de Armando. E até agora causa (riu-se, com as maçãs do rosto coradas por um calor que vinha de suas entranhas mais baixas).

Sentados à beira do canyon majestoso, um idoso sobe suas mãos pelas coxas de sua mulher e sente o líquido viscoso que já vertia morno de seu sexo. Sorri um sorriso maroto, muito seguro de seus predicados sensuais. Ela, excitada por pensamentos de outrora, deixa-se acariciar. Deitam-se em fazem amor como já não faziam havia mais de vinte anos, ali mesmo, na relva, à beira do precipício, com uma fúria adolescente infernal, como se tivessem pressa.

Não muito longe dali, um casal de jovens passa e observa aquele casal de velhos fazendo saliências à luz do dia. Riem-se. Fazem promessas de amor eterno, crentes na longevidade da paixão.


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