Passe Livre

Coluna Pedro Raposo Lopes


CRIANÇA

Quase sempre me vi tratado de menino velho, o que me consola, pois creio que é o melhor caminho para chegar a velho menino. (Miguel Unamuno)

Em julho deste ano, um emocion ante vídeo circulou na grande rede: nele, a juíza norte-americana do Estado da Flórida Mindy Glazer, trajada com sua toga negra no alto da cadeira de magistrada, divide a tela com um prisioneiro que era trazido à sua presença, trajado com o tradicional uniforme de cor de abóbora. Um negro de nome Arthur Booth, cuja idade regulava com a da juíza. Até aí, nada de novo. O que surpreendeu foi a pergunta inaugural da juíza: “Senhor Booth, o senhor frequentou o ensino médio na Nautilus High School?”.

A reação do prisioneiro, a chorar copiosamente e a passar freneticamente as mãos pelos cabelos, não foi mais surpreendente que a da Juíza, ao lhe perguntar o que havia acontecido com o coleguinha de classe, aquele que, nas palavras da magistrada, foi qualificado como o “menino mais doce da high school” que frequentaram juntos. O resto do emoconante e insueto encontro pode ser conferido no link https://www.youtube.com/watch?v=nGhL8wAR3yA.

O certo é que, em algum momento, as vidas da bonita menina branca e do doce menino negro de futuro promissor se separaram para depois se reencontrarem naquela sala da Corte da Flórida.

Outro dia, há alguns meses atrás, na condição de juiz das execuções penais da Comarca de Pará de Minas, MG, participei da banca destinada a escolher a melhor paródia, num concurso entre dezenas de prisioneiros que ocupam celas da Penitenciária Dr. Pio Canedo, que abriga quase mil detentos.

A sessão de julgamento foi divertidíssima. Naquela tarde, reunimo-nos nós, os jurados, e os sentenciados finalistas. Nós, do alto do tablado; eles, sentados com seus uniformes alaranjados (mas todos juntos) ríamos das paródias, das apresentações dos vencedores e das brincadeiras que os concorrentes faziam entre si.

Lembro-me de que a vencedora foi uma jovem que havia feito um coque nos cabelos e se enfeitado como pôde. Lembro-me também que ela ficou encabulada de representar sua paródia e foi parodiada por um outro sentenciado mais desavergonhado. Todos jovens. Naquele momento, ainda que por alguns minutos, fomos todos iguais, todos nós crianças irmanadas num jardim de infância sem muros altos, sem arames farpados, sem crimes, sem culpas, sem ternos, sem uniformes. Os agentes de segurança fortemente armados eram crianças a segurar suas espingardas de pressão. Foram momentos alegres no meio de tanta desgraça humana.

Esse encontro levou-me a profundas reflexões sobre a natureza humana e sobre as relações intersubjetivas. Sim, porque realmente tive, no auditório daquela unidade prisional, uma sensação de retorno à infância. Todos tivemos, embora nem todos tenham-se apercebido.

O homem não cresce jamais. O que mudam são os brinquedos. Foi Simone de Beauvoir quem disse que o adulto é uma criança de idade.

Fernando Collor, então Fernandinho, certamente gostava, quando criança, de carrinhos de brinquedos. Cresceu. Continuou a gostar de carrinhos. Só mudaram os fabricantes: antes, Estrela; agora, Lamborghini e Porshe. Eike Batista provavelmente sempre gostou de aviõezinhos e de aeromodelos. Cresceu. Continuou a gostar de aviõezinhos. Mudaram os fabricantes: antes, Estrela; agora, Embraer e Bombardier. Fernandinho Beira Mar era menino humilde de Duque de Caxias que não conheceu o pai. Foi criado por Dona Zelina, morta em atropelamento. Pode ser que gostasse de soltar pipas assim como o jovem Eduardo Felipe dos Santos, morto no Morro da Providência, no Rio de Janeiro, no dia 29 de setembro, num lastimável teatro encenado por alguns policiais em que era ele o protagonista da infame trama.

Ao fazer nova leitura do vídeo que mencionei no pródromo deste artigo, imaginei uma menininha branca a brincar de juíza, toda paramentada como tal, e um menininho negro a brincar de prisioneiro, também a caráter, eles mesmos a paródia de uma realidade perversa e cheguei à convicção de que a sociedade somente será verdadeiramente solidária, paritária, justa e democrática se conseguirmos enxergar, por detrás do adulto, a criança que ainda vive, com todas as suas inseguranças, mágoas, dúvidas e vicissitudes.

E de que, sob outro ângulo, nós somente conseguiremos atingir a felicidade plena se deixamos aflorar, com a maior frequência possível, a criança que nunca nos deixará. Que bobagens sejam ditas mais amiúde, que gargalhadas ressoem com mais frequência nos restaurantes, longe dos olhos de censura do adulto que não se entende criança.

Um dia, um professor da faculdade de direito em que eu cursava minha pós-graduação e de quem me tornei amigo, ao ouvir a minha angústia sobre como eu gostaria de ser mais circunspecto disse-me uma frase da qual jamais esquecerei e que divido com o gentil leitor: jamais confunda sisudez com seriedade. Custaram-me anos de análise para entender a correção da lição do eminente Mestre.

Que nós não saibamos, portanto, de forma alguma, manter sob controle a criança que fomos e que ainda somos; que sentemos de pernas abertas; que gargalhemos nos restaurantes; que nos lambuzemos com sorvete de chocolate; que riamos juntos com nossos filhos e ensinemos-lhes que a vida só é de ser vivida ser for com a intensidade de uma criança. Se um dia todos nós efetivarmos esse pacto, não precisaremos mais de grades, de muros, de arames, pois não haverá separação de caminhos entre adultos e crianças, que é onde se iniciam as cizânias, os crimes, as desinteligências inúteis, as barreiras entre os povos.

Feliz semana da criança para todos nós!


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