Passe Livre

Coluna Pedro Raposo Lopes



MISÉRIA

“Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Índio, mulato, preto, branco
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Filhos, amigos, amantes, parentes
Riquezas são diferentes”. 
(“Miséria”, Paulo Miklos / Sergio Britto / Arnaldo Antunes)


Fui visitar minha cidade natal na semana passada, o Rio de Janeiro, de São Sebastião. Enquanto aguardava no saguão do local onde iria palestrar, fiquei a observar aquela imensa e magnífica obra de engenharia construída no Píer Mauá, ali naquela praça (até ontem reduto de putas e marinheiros) em cujos arredores se situa o tradicional Colégio de São Bento, onde passei a maior parte de minha infância e adolescência. Belíssima construção recentemente inaugurada, digna das cidades mais prósperas do Primeiro Mundo.

Também não muito distante dali (e dava para ver na mesma moldura de vidro daquele prédio sofisticado do início da Avenida Rio Branco), a comunidade pobre do Morro da Providência e da Gamboa e, um pouquinho mais distante, surgindo entre muita névoa de poluição, a baixada fluminense.

O Rio de Janeiro é assim: cheio de contrastes. A pequenina Zona Sul, espremidinha entre as montanhas e o mar, berço da riqueza carioca, e o gigantesco bolsão de pobreza da baixada. As favelas da Zona Sul, penduradas nas encostas, funcionam como lembrança constante de que a pobreza está lá, existe e não pode ser desconsiderada no cotidiano de executivos e donas de casa.

Essa viagem que empreendi me fez refletir sobre os recentes ataques terroristas em Paris, cidade pela qual também nutro uma paixão imensa, por sua beleza inefável e pela cultura que exala cada esquina sua.

A Paris que conheço também possui seus imensos guetos, onde moram muçulmanos, africanos e toda sorte de minorias. Pessoas à margem do fausto da cidade-luz e tratadas com despeito pelos habitantes e turistas (estes, também, muitas vezes tratados com despeito, sobretudo os latinos. É interessante experimentar uma dose de preconceito, sobretudo quando se sabe que é temporário e não durará mais que o idílio de umas férias na europa).

Vez por outra, no meu Rio de Janeiro, habitantes dos arrabaldes saem de sua marginalidade territorial para desfrutar um pouco das belezas das praias e dos parques. São tratados com o mesmo desdém com que são tratadas as minorias parisienses. Caso não possuam muito dinheiro, poderão ser inclusive presos preventivamente, a bem da ordem pública, com as bençãos da Secretaria de Segurança Pública.

Como dizia De Gaulle, “o apetite do privilégio e o gosto da igualdade, eis as paixões dominantes e contraditórias dos Franceses em todas as épocas.” Os franceses sempre prestigiaram, dentre os ideários da revolução de 1789, o da “liberdade” em detrimento dos da “solidariedade” e da “fraternidade”.

Os recentes ataques terroristas à capital francesa, conquanto possam ter sido urdidos no longínquo oriente médio, foram executados por esses mesmos cidadãos marginalizados, ou quase-cidadãos. E agora, paradoxalmente, as medidas de polícia adotadas sufocarão a “liberdade” dos socialistas de cafés (como cá existem os comunistas de botequim do Leblon). Mas, ao que tudo indica, a iniquidade dos guetos tenderá a prosperar e o preconceito contra as minorias a recrudescer.

Diante desse quadro de confrangedora desigualdade, não foi difícil ao Estado Islâmico recrutar jovens dentre franceses que, sob o pretexto de promover a justiça divina, puseram as mãos em armas e bombas, a arrostar os conceitos ocidentais e seu modus vivendi libertino. 

Miséria é miséria em qualquer parte.

Dizem que o Brasil está imune a tais ataques jihadistas. Será?

Todos sabemos como a religião funciona como válvula de escape para as mazelas da pobreza, basta ver a profusão de igrejas, templos e cultos que se espalham por todas as capitais brasileiras. Some-se a isso o preconceito e a marginalidade e não será inconcebível que as ideias de fundamentalistas também grassem em terras tupiniquins.

E mais: é preciso que se tenha em mente que a má compreensão do Islã é também fruto da falta de educação ou da má formação cultural dessa horda de marginalizados que, justamente por desconhecerem os fundamentos da religião, distorcem os conceitos e lançam-se em empreitadas criminosas.

Ernst Jünger, um dos maiores escritores do século XX, em sua obra “A Guerra como Experiência Interior”, já evidenciava a existência, no ser humano, de algo bestial e o prazer pelo sangue existente nos soldados alemães da Primeira Grande Guerra, sobretudo naqueles cujos olhos não estavam acostumados ao belo e que, portanto, naquele cenário de terror, não experimentavam as intermitências da beleza.

Instile em algum menino pobre das periferias do Rio de Janeiro tais ideias pervertidas, arme-o com um fuzil AK-47, coloque-o em luta contra a desigualdade e terá um jihadista tupiniquim.

Miséria é miséria em qualquer parte.

Em tempo de Olimpíadas no Rio de Janeiro (riquezas são diferentes), é tempo de nos miramos no exemplo a não ser seguido dos franceses e que tenhamos o coração aberto para uma sociedade plural, democrática e igualitária, capaz de possa manter à distância a intolerância de todo tipo. Caso contrário, a Paris de hoje pode ser o Rio de Janeiro de amanhã.


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